
O impacto cultural provocado pela série Tremembé reacendeu um debate urgente sobre a forma como o público escolhe seus modelos de admiração. A produção, baseada na história de figuras reais envolvidas em crimes de grande repercussão, tem levado espectadores a confundir notoriedade com virtude, um alerta feito pelo estrategista de imagem pública Luciéllio Guimarães.
Guimarães observa que a sociedade contemporânea tende a transformar qualquer pessoa exposta em objeto de desejo ou inspiração, independentemente de sua conduta. “Fama não é sinônimo de reputação. Existe uma confusão perigosa entre celebridade e caráter. Toda forma de exposição desperta aspiração: eu quero ser aquilo que enxergo. Se o foco está em um criminoso, corro o risco de desejar repetir aquele comportamento ”, explica.
Para o especialista, o problema não está na obra de ficção, mas no fenômeno paralelo que ela alimenta: o surgimento do que ele define como “influenciadores do crime”. Segundo Guimarães, esse perfil de figura pública tem ocupado um espaço que antes pertencia aos influenciadores digitais tradicionais, desgastados por crises recorrentes de imagem. “Assistimos ao nascimento de um novo tipo de influência, a influência criminosa. Eles começam a desempenhar a mesma função simbólica dos influenciadores, mas a partir de trajetórias que deveriam causar repulsa, não admiração” , diz.
Guimarães ressalta que a postura crítica do público é essencial para não embaralhar ficção e realidade. Ele afirma que o debate deve valorizar a dimensão artística da série, especialmente o trabalho de atores como Marina Ruy Barbosa, intérprete de Suzanne von Richthofen. “É preciso celebrar o talento da atriz, não o comportamento da personagem. A interpretação é digna de elogio. O crime, não.”
A carência de referências positivas, segundo o estrategista, aprofunda esse desvio de percepção. Ele aponta que, em busca de ídolos, muitos acabam projetando admiração em figuras que não deveriam ocupar esse lugar. “A música, por exemplo, tem normalizado o crime aos poucos, ao exaltar comportamentos que deveriam ser condenados. É preocupante ver pessoas admirando quem deveria servir como alerta, não inspiração. ”
Guimarães reforça que não se trata de demonizar personagens ou produções audiovisuais, mas de recolocar os valores no eixo. “Cabe à Justiça lidar com os atos brutais da vida real. Já a admiração pública deveria estar reservada a quem contribui para o avanço humano: artistas, cientistas, jornalistas. Pessoas que, de fato, elevam a sociedade”, conclui.
