Danièle Akamine
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Danièle Akamine

Abril carrega um dado inquietante que, apesar de recorrente, ainda é pouco enfrentado com a devida profundidade: os feminicídios no Brasil voltam a crescer logo após o mês de março. A constatação, baseada em dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, revela um padrão que se repete ao longo da última década, justamente no período seguinte ao Dia Internacional da Mulher, quando campanhas, debates e coberturas midiáticas ampliam a visibilidade da violência de gênero.

À frente dessa análise está Danièle Akamine, advogada especializada no combate à violência contra a mulher e direitos humanos, que propõe uma leitura mais complexa sobre o fenômeno. Ela faz um alerta que "precisamos rever a forma como noticiamos casos de feminicídio e demais agressões". Ela defende mudanças não só na linguagem como no conteúdo, além de chamar a atenção para o fato que, na grande maioria das vezes, a imprensa só mostra o caso de violência sem apontar quais são os canais de saída para essas mulheres. 

"A análise de manchetes, chamadas, imagens e enquadramentos narrativos identificou padrões recorrentes de espetacularização da violência, legitimação simbólica do crime e revitimização institucional", aponta.

O debate parte da premissa de que a comunicação sobre violência contra mulheres não é apenas um elemento informativo. A forma como esses episódios são narrados publicamente pode ampliar riscos sociais ou contribuir para fortalecer informações de prevenção e acesso a canais de apoio às vítimas.

Segundo relatado pela especialista à coluna, não se trata apenas de observar os números, mas de compreender o ambiente que se forma em torno deles. A chamada “hipervisibilidade” dos casos, quando episódios de violência ganham grande repercussão pública, pode, em determinadas circunstâncias, contribuir para o aumento do risco social, dialogando com o que estudos internacionais descrevem como efeito de contágio.

A discussão ganha densidade ao incorporar o chamado Método Papageno, abordagem que defende uma comunicação responsável sobre temas sensíveis. Adaptado ao contexto da violência contra a mulher, o método sugere que a cobertura evite a espetacularização e priorize informação de serviço, contexto e caminhos de acolhimento. Nesse sentido, a comunicação deixa de ser apenas narrativa e passa a operar também como ferramenta de prevenção, em sintonia com os princípios da Lei Maria da Penha.

Para sustentar essa reflexão, o estudo revisita casos emblemáticos que atravessaram décadas e moldaram o imaginário coletivo brasileiro. Nomes como Ângela Diniz, Daniella Perez, Eliza Samudio, Tatiane Spitzner, Mariana Ferrer e Erika Satelis expõem padrões recorrentes: a dramatização excessiva, a exploração de imagens e, muitas vezes, a revitimização institucional.

O que emerge desse debate levantado pela Danièle Akamine é um alerta que vai além das estatísticas. "A forma como o feminicídio é narrado no espaço público não apenas informa, ela constrói sentido, influencia comportamentos e pode, silenciosamente, ampliar riscos", considera a advogada.

Entre a urgência de noticiar e a responsabilidade de preservar, há um território ético que precisa ser ocupado com mais consciência. E talvez abril, com sua repetição incômoda, seja o momento mais simbólico para persarmos essa virada de chave.

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