
A disputa judicial entre a empresária e estilista Lúcia Helena da Silva e a cantora Anitta ganhou novos e contundentes capítulos com decisões que favorecem a criadora da marca Ropahrara. Em julgamento recente, a Justiça rejeitou, em segunda instância, os pedidos da defesa da artista para manter o processo em segredo, além de indeferir as tentativas de retirar a acusação de racismo estrutural e segregação racial dos autos. O magistrado responsável pelo caso, que já negou seis pedidos da cantora até o momento, determinou a realização de uma perícia técnica para apurar a autoria de figurinos utilizados em clipes de repercussão global, como “No meu talento”, “Is That for me”, “Vai Malandra” e “Funk Rave”.
A ação, que pleiteia R$ 1 milhão por violação de direitos autorais e propriedade intelectual, além de 5% em cima do faturamento digital dos clipes com as peças, aponta que peças de Lúcia Helena foram comercializadas em campanhas publicitárias sob a falsa atribuição de outra profissional, o que a autora classifica como uma perpetuação da invisibilidade e subalternidade enfrentada por pessoas negras na moda.
Lúcia Helena da Silva, que comanda sua marca na Rua Augusta há quase 30 anos e já vestiu produções como "Avenida Brasil", Pé na Jaca, e filmes como "Bruna Surfistinha", decidiu quebrar o silêncio e relatou com exclusividade sua versão sobre o caso. Segundo a designer, a situação ultrapassa a esfera financeira e atinge sua dignidade profissional e pessoal. Em seu depoimento integral, ela afirma:
"Oi pessoal, eu sou a Lúcia Helena da Silva, proprietária e criadora da Ropahrara. Eu resolvi gravar esse vídeo agora... por que agora? Porque minha família, meus amigos, ex-funcionários, funcionários, todo mundo quer saber, vem me perguntar. Tenho recebido diversas mensagens de clientes também que viram algo aí sobre este processo que rola desde 2024. O que acontece... eu tenho uma marca de moda aqui desde 1997, tem tempo né? Ano que vem vai fazer 30 anos que eu estou aqui na Rua Augusta e amo, amo meu trabalho, minha marca. Muito difícil né, todos os dias é uma luta diária, uma luta diária. Eu emprestei e eu empresto, eu sempre vou emprestar as minhas roupas para estarem em produções pequenas, grandes, não importa. E eu emprestei minhas roupas aí para esse projeto. Quando eles vieram, quando eles retornaram com as roupas, eu falei: 'Cara, fala para ela que ela não precisa pagar, uma honra para mim ela usar minha roupa'. E aí o produtor na época disse assim: 'Olha, ela não vai topar'. Ah, normal, é normal isso. Já várias produções já foram ao ar sem crédito, é normal sabe? O que não é normal é dar o crédito para outra empresa né? Uma outra estilista apareceu explicando os looks. E eu me lembro que a minha irmã falou assim: 'Mana, suas peças estão lá no Fantástico'. Eu falei: 'Não, eu acho que não são minhas, porque eles não me deram... eles falaram que talvez não iam usar e tinha uma outra estilista aí dizendo que se inspirou na Amazônia, enfim, um monte de publicidade e tal'. E para meu espanto, fui lá ver, realmente estavam lá minhas peças e os créditos foram dados para outra empresa, enfim. Fiquei aqui aguardando, fiquei com muita vergonha, imaginem como eu fiquei ao ver... passei por mentirosa né, porque eu falei: 'Gente, meus looks vão estar aí num clipe e tal'. E não, aqueles looks... tem meu filho né? Meu filho era bebê. Eu quero que a minha empresa cresça, que ela permaneça. Imagina meu filho um dia ainda ser acusado de plagiador? Eu tentei de todas as maneiras, eu tentei. Tentei falar com ela porque eu não queria publicidade, eu nunca quis publicidade, se eu quisesse eu nem rede social eu tinha, se eu quisesse publicidade. Eu não gosto de exposição, na realidade eu não queria nem estar aqui fazendo isso agora. Estou vindo porque achei importante falar agora né? Também é uma luta para nós mulheres, mulheres pretas, mulheres empreendedoras, pretas ou não, que lutam e têm seu trabalho assim desvalorizado. Eu não me senti valorizada. Então, procurei os meios corretos, estou sendo assessorada maravilhosamente pelo escritório do Dr. Marlon Reis, que é maravilhoso, e super acredito na justiça brasileira. E é isso, qualquer coisa eu estou por aqui."
A manutenção da pauta racial no processo foi celebrada pela defesa da estilista, uma vez que a Justiça considerou a denúncia "bem fundamentada". Para a empresária, o caso serve como um alerta sobre a necessidade de respeito à propriedade intelectual de criadores independentes que, muitas vezes, acabam silenciados por grandes corporações e artistas de renome.
Com a perícia determinada, o processo segue para a fase técnica onde será confrontada a originalidade das peças criadas por Lúcia Helena com aquelas que foram amplamente divulgadas em campanhas nacionais e internacionais, buscando reparar o que ela descreve como uma propaganda enganosa que induziu o público ao erro sobre a verdadeira origem das criações da Ropahrara.
