
A cantora Gabi Martins virou alvo de uma avalanche de críticas nas redes sociais depois de publicar um vídeo cuidadosamente produzido sobre a morte de seu padrinho. A gravação mostra a artista ajoelhada, chorando diante da câmera posicionada no chão, com cortes e edição trabalhada para uma construção estética da própria dor. A repercussão foi imediata: milhares de internautas passaram a questionar se aquele momento representava um desabafo espontâneo ou uma performance planejada para gerar alcance, engajamento e viralização. O debate não surgiu por insensibilidade do público diante da perda, mas porque a linguagem do vídeo remete muito mais à lógica da produção de conteúdo do que à intimidade do luto. Isso é um fato!
E esses questionamentos dos internautas estão longe de ser crueis. Digo isso porque vivemos uma era em que as emoções passaram a ocupar espaço de mercadoria nas plataformas digitais. Quanto mais intensa a emoção, maior a possibilidade de compartilhamentos, comentários e retenção de audiência. A dor deixou de ser apenas uma experiência humana para também se tornar um ativo de visibilidade. E se alguém escolhe montar enquadramento, posicionar o celular, gravar a própria reação, editar o material e publicá-lo, inevitavelmente transforma uma experiência privada em um produto de consumo público. Nesse momento, a audiência deixa de ser apenas espectadora da dor e passa a ter o direito de discutir a forma como essa dor foi apresentada.
O sofrimento autêntico não desaparece porque foi filmado, mas a introdução da câmera modifica a cena. A presença do olhar do outro passa a integrar a experiência. Existe uma diferença entre registrar um momento e construir uma narrativa audiovisual sobre ele. Quando há preparação estética, enquadramento e linguagem típica de vídeos feitos para performar bem nos algoritmos, instala-se uma dúvida legítima: quem está sendo priorizado naquele instante, a memória da pessoa que morreu ou a repercussão da publicação? Essa pergunta não acusa ninguém de fingir sofrimento; apenas reconhece que, na sociedade das redes, autenticidade e espetáculo frequentemente entram em conflito.
Outro fato inegável é que as redes sociais consolidaram um modelo de recompensa em que atenção significa capital, influência e, muitas vezes, retorno financeiro. Plataformas premiam aquilo que desperta emoção intensa, independentemente da natureza dessa emoção. Por isso, o público desenvolveu uma espécie de mecanismo de autodefesa, tornando-se mais desconfiado diante de conteúdos excessivamente apelativos produzidos em momentos de tragédia pessoal.
Não estou aqui negando o direito de alguém viver o próprio luto da maneira que desejar. Mas estou reconhecendo, sim, que, quando esse luto é transformado em conteúdo cuidadosamente editado para circulação pública, o debate sobre seus limites deixa de ser implicância e passa a ser uma consequência natural da exposição voluntária. A dor merece respeito. Mas a espetacularização da dor também merece questionamento.
