Alessandro Lo-Bianco

Fiuk: aceitar não é concordar. É seguir!

Nem todo mundo recebeu ou recebe o amor que merece. Essa dor explica muita coisa, mas não pode se tornar uma prisão para o resto da vida adulta

Fiuk e Fábio Jr.
Foto: Reprodução/Instagram
Fiuk e Fábio Jr.

O desabafo feito por Fiuk nesta madrugada, no qual relata o sofrimento causado pelo afastamento da família e, consequentemente as dificuldades financeiras decorrentes desse rompimento, desperta uma reflexão terapêutica. É evidente que ninguém conhece integralmente a história de uma família olhando apenas de fora, e seria irresponsável apontar culpados. Sim, é perfeitamente possível que existam feridas abertas pela ausência do amor, do acolhimento ou da validação que toda todos merecem receber. E, se foi isso que aconteceu, que merda que não teve. A dor é legítima. O vazio também. Mas a pergunta que a vida adulta faz depois disso é outra.

Jovens, reconhecer uma ferida é muito diferente de construir uma identidade em torno dela. A criança interior existe, manifesta suas dores e precisa ser ouvida. O problema começa quando o adulto entrega a direção da própria vida para essa criança. A criança chora, esperneia, cobra, espera reparação. O adulto compreende que há injustiças que jamais serão corrigidas e, justamente por isso, decide não permanecer refém delas. Maturidade não é apagar o passado. É impedir que ele continue governando o presente.

Aprendi com o professor e amigo Eduardo Casarotto, criador da Virtologia, que uma das virtudes mais difíceis é justamente a aceitação. Aceitar não significa dizer que foi certo, que foi justo ou que não doeu. Significa reconhecer que aquilo aconteceu e que nenhum sofrimento repetido mentalmente será capaz de alterar um único segundo do passado. Há pessoas que receberam todo o amor do mundo e desperdiçaram a vida. Há outras que cresceram sem quase nenhum afeto e construíram trajetórias extraordinárias. A diferença não está apenas na infância que tiveram, mas na decisão que tomaram depois que ela terminou.

Se Fiuk realmente deseja reconstruir a própria história, talvez precise compreender que permanecer na posição de vítima jamais produzirá a reparação que ele procura. A ausência de amor pode explicar uma dor, mas não pode justificar uma existência inteira paralisada por ela. Em algum momento, todos nós somos obrigados a abandonar a expectativa de receber aquilo que não veio e começar a construir, com as próprias mãos, aquilo que faltou. A aceitação não cura todas as feridas, mas é ela que impede que continuemos sangrando pelas mesmas durante o resto da vida.