
Estou absolutamente indignado com a seriedade do episódio que já se espalhou por todas os sites, mas que merece um olhar mais demorado, quase íntimo, como quem observa a lua antes da bateria entrar na Avenida. No restaurante, onde supostamente se celebra a leveza de um encontro, houve tudo, menos leveza: Belo, Rayane Figliuzzi, a assessora Ju Palmer e a assistente pessoal 'Segura Bolsa' se viram envolvidos em um desentendimento que terminou no ponto exato onde o Brasil insiste em tropeçar: no racismo. Ju, a única assessora de imprensa de Rayane, mulher preta, profissional respeitada há décadas, ouviu ser chamada de “macaca” e ainda teve uma bebida jogada em suas costas. A brutalidade do gesto dispensa metáforas; o eco histórico desse insulto, porém, exige reflexão. E isso vai determinar a forma como Rayne será vista no Carnaval, uma celebração PRETA.
A imprensa procurou Rayane. E ela, em resposta, confirmou a história, mas não tocou no coração mais pulsante do acontecido: o racismo contra Ju. A omissão é uma presença ensurdecedora. Para quem deseja ocupar espaços de representatividade, sobretudo no carnaval, onde o Brasil mais se reinventa em sua pretitude, silenciar diante de um crime grave revela mais do que prudência: revela complacência. E, enquanto a assistente Segura Bolsa segue ao lado de Rayane, como se nada tivesse acontecido, a pergunta que resta, urgente, é: o que significa manter por perto alguém que feriu publicamente uma mulher preta?
Há uma ética que atravessa os corredores do samba, uma ética que não se escreve em contratos, mas em respeito. Ju Palmier, mulher preta, comunicadora, forjada no calor das quadras e no rigor das redações, é parte viva da história do carnaval. Ela ajudou a erguer rainhas de bateria, musas, carreiras e pontes. O tratamento que recebe agora, no epicentro de um caso de racismo explícito, movimenta algo profundo e antigo: a solidariedade das comunidades que conhecem o peso da exclusão. Não à toa, o que já circula nos bastidores não é rumor, é reação.
Não existe neutralidade diante do racismo. Nenhuma famosa pós reality sobrevive muito tempo quando escolhe o silêncio onde deveria haver posicionamento. O que Rayane precisa compreender não é só o dano imediato, mas o que sua omissão comunica enquanto figura pública que deseja ser. Há uma gramática do poder que não perdoa descuidos com símbolos tão sensíveis quanto a violência racial; há uma coreografia social que rapidamente retira o protagonismo de quem insiste em ignorar o próprio papel nela.
E, se Rayane realmente quer pisar na avenida, precisa saber onde pisa. O carnaval é uma festa preta. Os bastidores já conversam, atentos, sobre os próximos passos. Caso essa história não seja esclarecida, caso não haja medidas claras e públicas sobre a atitude racialmente violenta de sua assistente 'segura bolsa', Rayane enfrentará algo que nenhuma celebridade deseja: as câmeras dos fotógrafos abaixadas, desligadas, e as canetas dos jornalistas pesadas, firmes, prontas para registrar não o brilho, mas o peso da omissão. Porque na avenida, diante do povo do samba, uma mulher branca de olhos azuis que silencia sobre o racismo não passa despercebida, passa julgada.
