Fiuk e Fábio Jr.
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Fiuk e Fábio Jr.

Acho bem constrangedor quando um homem adulto, barba feita, nome próprio e contas pagas decide transformar a própria infância em manifesto público de acusação. Recentemente, um cantor escolheu a música não como elaboração simbólica do passado, mas como tribunal emocional, no qual o pai é réu, o narcisismo vira diagnóstico raso e os traumas são apresentados como sentença definitiva. No caso de Fiuk, o gesto não revela coragem artística, mas uma fixação infantil revestida de expressão autoral.

Existe uma diferença essencial, e frequentemente ignorada, entre ser adulto e ter maturidade. Adulto é quem cumpre deveres básicos da vida civil. Tipo pagar as próprias contas. Maturidade, porém, é outra instância: ela se revela na capacidade de aceitar a própria história sem permanecer refém dela. Aceitar não é romantizar o sofrimento, tampouco negar feridas, mas compreender que o passado não pode ser reeditado e que a responsabilidade pela vida psíquica atual não pode ser eternamente terceirizada nas costas dos pais. Eu não recebi o amor que acho que merecia: ok, eu aceito, e sigo em diante. Isso é ter maturidade. A diferença entre ser adulto e ser maduro está ai: a forma como lidamos com nossos traumas, assumindo as responsabilidades no presente. Se foram responsáveis em te fazer triste, agora você é o responsável em ser feliz, sem despejar culpas. Fazer música nesse caso, não costuma dar certo. Nunca deu, por exemplo, para o Dado Dolabella.

Nossos pais são sujeitos históricos, limitados pelo tempo, pela cultura e pelo repertório emocional que possuíam. Ninguém nasce sabendo amar corretamente, ninguém nasce sabendo ser pai, assim como ninguém nasce sabendo ser o filho ideal. Esperar perfeição retroativa é um desejo infantil. Insistir nisso na vida adulta é recusar o princípio mais básico da maturidade: o de que houve o que houve, e não o que gostaríamos que tivesse havido.

Quando um adulto transforma a criança interior em bússola moral permanente, o resultado não é profundidade emocional, mas regressão. O grito, o choro e a acusação pública não são sinais de elaboração, e sim de fixação. Culpar os pais pelo adulto que se é hoje pode soar catártico, mas revela algo incômodo: a recusa em assumir a autoria da própria existência. É mais fácil apontar para trás do que sustentar o agora.

A maturidade começa quando a infância deixa de comandar o discurso. Evoluir é compreender que o passado não desaparece, mas também não governa. Um adulto verdadeiramente maduro não canta para acusar, nem escreve para punir: ele transforma, sublima e segue. Permanecer de mãos dadas com a criança ferida pode até render aplausos momentâneos, mas, no fundo, denuncia o que nenhuma barba consegue esconder: a dificuldade de crescer por dentro.

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