IA
IA
IA


O que a Record fez ontem ao apresentar um “novo comentarista esportivo” gerado por inteligência artificial não é ousadia, não é futuro e muito menos revolução. É preguiça e economia porca disfarçada de tecnologia. Já vimos o SBT cometer esse erro com o Léo Noites, num experimento constrangedor, frio e artificial, literalmente, e agora a Record resolve repetir a fórmula fracassada como se o público tivesse memória curta. Não tem. O resultado continua o mesmo: um produto pobre, desrespeitoso e de uma feiura ética difícil de ignorar e engolir. O pior: colocar um avatar ao lado de nomes consagragos como Cleber Machado. Constrangedor.

Não estamos falando de algo complexo, caro ou sofisticado. Hoje, com apenas R$ 97, qualquer pessoa compra um cursinho de IA no Instagram e aprende a fazer um avatar falante e consistente em poucos minutos. Usando Gemini, Flow ou qualquer plataforma genérica, em cinco segundos se cria um “comentarista” que fala, pisca e sorri sem pensar, sem sentir e sem reagir. É um boneco programado, gravado, roteirizado, incapaz de interagir em tempo real, de sair do script, de errar, de improvisar, de responder a uma crítica ou de sustentar uma opinião. Isso não é comentarismo esportivo. É PowerPoint porco com boca. E o universo da IA está tão avançado, que nem perceberam que produziram o avatar mais simples e porco.

O mais grave é o que isso representa para os profissionais da comunicação. Avatares não recebem salário, não adoecem, não reclamam, não pedem direitos, não exigem dignidade. Enquanto isso, jornalistas, comentaristas e apresentadores perdem espaço para personagens que “trabalham de graça” porque não são gente. Ou pior: há alguém ganhando pouco, trabalhando dobrado, programando, roteirizando e alimentando esse avatar ridículo sem ter sequer o rosto na tela ou o reconhecimento profissional. É a precarização elevada ao status de inovação.

E o público? O público também perde. Perde o debate vivo, a emoção do erro, a inteligência do improviso, a humanidade do comentário atravessado por repertório, vivência e personalidade. Televisão não é videogame, não é metaverso, não é laboratório de vaidades tecnológicas. Quando uma emissora escolhe um avatar em vez de um profissional, ela está dizendo que tanto faz quem fala: e isso é uma confissão de falência editorial e de Recursos Humanos.

Fica aqui o alerta direto e sem rodeios ao sindicato e à categoria: hoje é o comentarista esportivo virtual, amanhã pode ser o âncora do jornal, depois o apresentador do programa dominical. Daqui a pouco, se ninguém reagir, estaremos assistindo a uma missa celebrada por um bispo avatar, com sermão escrito por algoritmo e fé terceirizada. Isso não é avanço. É um retrocesso tosco, porco, barato e perigoso. Temos muito mais a perder, profissionais e público, do que qualquer emissora imagina ganhar brincando de substituir gente por avatar.

    Comentários
    Clique aqui e deixe seu comentário!
    Mais Recentes