
Na coluna anterior, chamamos atenção para a intolerância religiosa explícita de Pedro ao associar seu mal-estar físico à suposta religião de Ana Paula, usando o axé como bode expiatório simbólico. No dia, naquele momento, ainda havia espaço para dúvida: crise emocional mal elaborada, confusão interna, despreparo. Esse espaço, no entanto, foi fechado pelo próprio Pedro em menos de 24 horas. Ao fingir uma crise de pânico diante dos colegas, mobilizando preocupação coletiva, para, em seguida, rir da situação, ele não apenas desmontou sua própria narrativa anterior como revelou algo mais grave: a naturalização da encenação em temas que não admitem jogo.
Brincar com saúde mental não é apenas falta de noção; é violência simbólica. Crises de pânico, ansiedade aguda e colapsos emocionais são experiências reais, devastadoras e gatilho para milhões de pessoas que assistem ao programa em rede nacional. Quando Pedro performa esse sofrimento como estratégia de cena, para rir em seguida, ele transforma dor em instrumento de atenção. Do ponto de vista ético, é inaceitável. Do ponto de vista social, é perigoso. Do ponto de vista psíquico, é revelador: não se trata de impulsividade, mas de cálculo.
A rapidez com que ele desmontou a própria versão da “garganta fechada” aponta para um padrão. A dissimulação aqui não é confusa nem desesperada, ela é fria. É o tipo de comportamento que testa limites, mede reações e recalibra estratégias conforme o impacto causado. Em termos de análise comportamental (o que me enriquece a partir dos realities) isso acende um alerta: quando o sofrimento vira recurso narrativo e não vivência, o jogo deixa de ser apenas social e passa a ser manipulatório.
O episódio do botão, em que Pedro se autodesclassifica da prova e leva junto um amigo, reforça essa leitura. Não foi um gesto ingênuo, nem apenas emocional. Foi um ato de alto impacto simbólico, cuidadosamente escolhido para produzir centralidade. Em um reality, chamar atenção é moeda, e Pedro parece disposto a pagar qualquer preço para obtê-la, inclusive instrumentalizando o outro e sabotando o coletivo. A decisão não revela fragilidade; revela estratégia.
Por isso, é preciso atenção redobrada ao comportamento desse garoto ao longo do BBB 26. O que está em jogo não é só antipatia ou erro pontual, mas um modo de operar que mistura intolerância, encenação emocional e cálculo de cena. O Big Brother é, sim, um jogo, mas há limites éticos que, quando atravessados, dizem menos sobre confinamento e mais sobre caráter. E Pedro, até aqui, parece empenhado em provar que nada do que faz é sem intenção. E que, talvez, não tenha caráter... Talvez...
