
É extramemente arrogante e soberba a ideia de que um artista pode subir ao palco sem condições de trabalhar, entregar um espetáculo abaixo do mínimo aceitável e, depois, acreditar que tudo se resolve com um vídeo emocionado nas redes sociais. O pedido de desculpas é obrigatório. A promessa de um show gratuito é apenas o reconhecimento tardio de uma falha grave. O público de Maracanaú não recebeu um favor naquela noite; recebeu um serviço que deveria ter sido prestado com profissionalismo. Quando um cantor admite que bebeu, "se emocionou" e não conseguiu entregar o que costuma entregar, está confessando que falhou justamente com quem sustenta sua carreira.
Mais grave ainda é o impacto sobre toda a cadeia envolvida no evento. Há patrocinadores, comerciantes, organizadores, equipes técnicas e trabalhadores que investem tempo e dinheiro para que o espetáculo aconteça. O palco não existe apenas para satisfazer os impulsos momentâneos e primitivos do artista. Quando alguém sobe visivelmente sem condições de exercer sua função, não está apenas decepcionando fãs; está comprometendo um compromisso coletivo construído por dezenas ou centenas de pessoas com uma irresponsabilidade sem tamanho. O prejuízo moral se espalha muito além das primeiras filas.
E notório que Nattan, desde a notícia da paternidade, se vê numa curiosa inversão de maturidade. Talvez não estivesse pronto ainda para ser pai e sentiu a pressão. A chegada da paternidade costuma representar a ampliação do senso de responsabilidade. No entanto, em alguns casos, como o do Nattan, parece ocorrer o contrário: quanto maiores as obrigações, mais intensa se torna a busca por comportamentos impulsivos que deveriam ter ficado para trás. Como se a vida adulta fosse encarada não como um chamado à disciplina, mas como algo a ser constantemente sabotado por atitudes que lembram a adolescência e sua válvulas de escape.
O resultado é um contraste desconfortável entre a imagem pública de referência e a prática privada da irresponsabilidade. O maior equívoco e mais revelador, na minha opinião, está na crença de que o público está necessariamente ansioso por uma segunda chance. Não. O público quer respeito na primeira oportunidade. Pedir desculpas e falar que retorna para uma apresentação grátis é pura arrogância. O público, talvez nem queira, e prefere variar agora vendo outro artista. A gratuidade da nova apresentação não transforma um erro em gesto de generosidade. Apenas confirma que o erro existiu. Quem realmente valoriza e respeita seus fãs não tenta compensar o fracasso depois; evita produzi-lo antes.
