
O último voo da nave de Xuxa deveria ter sido um daqueles momentos capazes de reunir apenas memória, afeto e reconhecimento. Mas bastou a apresentadora ocupar novamente o centro das atenções para que a ex-contratada de uma emissora voltasse a transformar a própria rede social em um plantão permanente de comentários sobre a artista. Há quem acompanhe uma carreira. Há quem pareça acompanhar uma pessoa. E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.
Lembro de Bebê Rena, da Netflix, que surgiu apenas como metáfora de um comportamento que impressiona pela insistência. Enquanto a série retrata uma ficção inspirada em uma história de obsessão, o que se vê publicamente, neste caso, é uma sequência quase previsível: basta Xuxa respirar que aparece mais uma publicação, mais uma provocação, mais uma tentativa de converter o brilho alheio em combustível para uma rivalidade que, fora desse roteiro, poucos parecem enxergar. O palco muda, os anos passam, mas o script permanece exatamente o mesmo.
Existe uma armadilha curiosa em transformar alguém no eixo permanente da própria narrativa. Aos poucos, a identidade deixa de ser construída pelas próprias realizações e passa a depender da existência do outro. Quem vive esperando o próximo passo de alguém acaba abrindo mão de escrever a própria história. E não há ironia maior do que dedicar tanto tempo tentando diminuir quem continua ocupando um espaço que o público nunca deixou de reconhecer.
Talvez a maior demonstração de grandeza seja compreender que algumas disputas simplesmente acabaram, ou talvez nunca tenham existido fora da imaginação de quem insiste em alimentá-las. O humor dessa história está justamente aí: enquanto uma marca mais uma vez a antiga geração, e também a atual com trabalho artístico, a outra parece acreditar que ainda está disputando um concurso cujo resultado foi anunciado décadas atrás. Algumas naves fazem o último voo. Outras continuam girando em órbita, desorientadas, procurando um planeta que já seguiu viagem. No final, não era o zumbido de uma nave, mas de um pernilongo, que aos poucos vai perdendo folêgo, cada vez mais...
