João Victor Gonçalves
Reprodução Instagram
João Victor Gonçalves


Há um erro recorrente em analisar episódios como o vivido pelo ator João Victor Gonçalves apenas como manifestações de preconceito. O preconceito é a superfície. O problema mais profundo é educativo. Nenhum ser humano nasce sabendo humilhar outro em coro. Esse comportamento é aprendido, reforçado e, sobretudo, recompensado. A pedagogia não acontece apenas dentro da escola; ela está nas famílias, nas redes sociais, nos grupos de amigos, e também na televisão, como, por exemplo, no horário nobre do SBT. Cada gargalhada dos ratos diante de uma piada homofóbica, cada vídeo compartilhado, cada silêncio cúmplice, por preconceito ou puxa-saquismo, ensina que degradar alguém pode produzir reconhecimento.

Acordei assistindo essas imagens e a conclusão é uma só: banalização da desumanização. O ator não estava sendo visto como um ser humano, mas um alvo para fortalecer a identidade do grupo agressor. Não importa quem seja João Victor Gonçalves. Poderia ser qualquer outra pessoa identificada como diferente. O objetivo não é corrigir um comportamento, mas reafirmar uma hierarquia imaginária em que alguns acreditam possuir o direito de definir quem merece respeito e quem pode ser reduzido à condição de objeto de escárnio. A violência verbal, nesse contexto, não comunica uma opinião; ela exerce poder.

O aspecto mais alarmante é perceber que muitos jovens cresceram sem desenvolver uma competência essencial para qualquer convivência civilizada: a capacidade de reconhecer a humanidade do outro antes de emitir qualquer julgamento. A educação contemporânea acumulou informações, mas fracassou em formar consciência ética. Ensina-se a competir, a aparecer, a viralizar, mas cada vez menos a conviver. O resultado é uma geração que domina tecnologias sofisticadas, porém encontra enorme dificuldade para administrar a própria frustração sem recorrer à ridicularização de quem pensa, vive ou ama de forma diferente.

É por isso que episódios como esse não são simples “polêmicas de famosos”. Eles funcionam como radiografias da sociedade. O ataque contra um ator em um evento público revela que a intolerância já não procura esconder-se. Ela busca plateia. E esse talvez seja o sinal mais preocupante de todos: uma sociedade começa a adoecer gravemente não quando produz indivíduos violentos, mas quando deixa de sentir vergonha da violência e passa a consumi-la como entretenimento, como eu disse, até em rede nacional. Nesse momento, a crise deixa de ser da vítima. Ela passa a ser de toda a comunidade que aprendeu a aplaudir aquilo que deveria sentir nojo e repudiar. 

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