
A fronteira entre apresentar um crime ao público e transformá-lo em espetáculo voltou a ser questionada em São Paulo. Em cartaz na cidade, a exposição “A Mente de um Serial Killer” utiliza recursos imersivos para reconstruir elementos relacionados à trajetória de assassinos em série conhecidos mundialmente. A proposta, porém, abriu uma discussão que vai além do conteúdo da mostra: ao colocar o visitante dentro de cenários associados aos crimes e estimulá-lo a reproduzir determinados comportamentos, a experiência pode deslocar a atenção da violência cometida para a figura de quem a praticou.
A advogada Danièle Akamine, integrante da Comissão de Direitos Humanos da OAB-SP e especialista em políticas públicas e violência contra a mulher, vê nesse tipo de abordagem um problema relacionado à própria responsabilidade de comunicar a violência. Para ela, existe uma diferença fundamental entre contextualizar um crime e apresentar detalhes capazes de transformar a conduta do agressor em algo visualmente reproduzível. “A exposição inverte o princípio central do método que propomos aplicar ao tratarmos do tema da violência contra a mulher no Brasil. A recomendação é de que a narrativa não detalhe o comportamento do agressor a ponto de torná-lo reproduzível”, afirma.
A crítica se aproxima dos princípios do Método Papageno, desenvolvido originalmente no campo da prevenção do suicídio e posteriormente incorporado às recomendações de comunicação responsável da Organização Mundial da Saúde. A proposta parte da ideia de que a comunicação deve evitar a reprodução detalhada de comportamentos potencialmente imitáveis e privilegiar informação, prevenção e alternativas de proteção. Na avaliação de Danièle, essa lógica também ajuda a pensar a cobertura e a apresentação pública de crimes violentos. “A comunicação é uma dimensão estrutural da violência. Não é apenas um reflexo do que acontece na sociedade, mas uma engrenagem que pode acelerar ou frear a barbárie”, diz.
O ponto mais sensível, segundo a advogada, está justamente na participação física do visitante. Na exposição, o público recebe orientações para reproduzir posições e comportamentos atribuídos aos criminosos retratados, como recostar-se em um banco de carro em uma referência a Ted Bundy ou simular sofrimento em uma cadeira associada a David Parker Ray. A experiência inclui ainda reconstrução de ambientes, orientação de pose e enquadramento, fazendo com que a pessoa deixe de ser apenas espectadora e passe a representar uma cena ligada ao crime. Para Danièle, esse mecanismo produz uma inversão de perspectiva: enquanto uma comunicação responsável deveria reduzir o protagonismo do agressor e ampliar o espaço destinado às vítimas e à prevenção, a experiência coloca o criminoso no centro da narrativa, inclusive com ambientes identificados por seu nome, cenários reconstruídos e produtos colecionáveis relacionados a ele.
A discussão também alcança a maneira como a cultura contemporânea transforma criminosos violentos em figuras de interesse público. Para Danièle, a questão não é simplesmente contar a história de um serial killer, mas avaliar o que acontece quando a narrativa abandona a contextualização e passa a oferecer ao público uma experiência de identificação, encenação e consumo em torno do agressor. Advogada e ex-Coordenadora de Políticas para Mulheres da cidade de São Paulo, ela defende que a comunicação sobre violência seja estruturada a partir da prevenção, da proteção e das vítimas, evitando mecanismos que possam contribuir para a glamourização ou reprodução das condutas violentas.
