
A sereia passou anos acreditando que o mar era dela. Nadava em águas mornas, transparentes, onde as correntes levavam presentes, confortos e facilidades. Parecia um reino encantado, desses em que o luxo brota das conchas e ninguém pergunta quem paga a maré. Mas existe uma característica das águas artificiais: basta o primeiro vazamento para revelar que o oceano era, na verdade, uma piscina com dono.
Relações escondidas costumam vender a fantasia da liberdade, quando, na prática, funcionam como contratos silenciosos. Há quem chame de romance; outros preferem chamar de conveniência. O problema é que acordos feitos nas sombras têm o péssimo hábito de buscar a luz justamente quando deixam de interessar a uma das partes. E aquilo que parecia confidencial vira espetáculo, porque segredos raramente morrem de velhice; quase sempre morrem de vingança.
Agora, a sereia que desfilava entre recifes de águas cristalinas se debate num córrego barrento, cercado por lama e olhares de reprovação. O canto perdeu o encanto, a cauda pesa como chumbo e o mar de aplausos foi substituído por uma correnteza de desconfiança.
Descobre, tarde demais, que viver sustentada pela maré dos outros significa também afundar quando essa maré seca. Não existe glamour capaz de sobreviver quando a imagem deixa de ser construída pelo brilho e passa a ser iluminada pelos holofotes da exposição.
Talvez a maior tragédia não seja o fim da abundância, mas a queda do conto. Porque sereias não morrem apenas quando lhes falta água; morrem quando o público percebe que nunca viveram no oceano, apenas num aquário cuidadosamente decorado.
E, uma vez quebrado o vidro, não resta mar para onde fugir. Resta apenas o pântano, onde toda tentativa de parecer majestosa termina parecendo apenas um esforço desesperado para não afundar.
