
O caso de Pedro no Big Brother Brasil 26 ultrapassa o limite do entretenimento e invade um território grave e perturbador. As imagens em que ele tenta beijar Jordana à força, segurando-lhe o pescoço, provocaram indignação pública e levaram advogados criminalistas a apontarem o episódio como algo que pode ser enquadrado, juridicamente, como estupro ou tentativa de estupro, dado que o ato só não se consumou plenamente porque a vítima reagiu. No entanto, enquanto a violência era debatida, um dado chamava ainda mais atenção: Pedro triplicou o número de seguidores nas redes sociais. O agressor, paradoxalmente, ganhou público.
Esse fenômeno não é isolado no Brasil . Ele dialoga diretamente com o sucesso recente de séries como Tremembé, nas quais assassinos e criminosos reais são transformados em protagonistas de narrativas altamente consumidas. A violência deixa de ser apenas um fato social a ser combatido e passa a ocupar o lugar de produto cultural. Estava essa manhã quebrando a cabeça para compreender esse processo: definitivamente, aponto com segurança a permanência da sociedade do espetáculo, em que a visibilidade vale mais do que a ética, e em que qualquer forma de notoriedade, inclusive a infame e criminosa, pode ser convertida em capital simbólico e social.
É preciso muita seriedade para encararmos o problema de frente: interesse por criminosos revela uma crise profunda de referências morais coletivas em nosso Brasil. Seguir o agressor não significa, necessariamente, concordar com ele, mas indica uma curiosidade mórbida que mistura voyeurismo, desejo de pertencimento ao debate e fascínio pelo desvio. Em sociedades marcadas por desigualdade, violência estrutural e sensação de impunidade, o criminoso passa a representar, de forma distorcida, alguém que rompe regras e, ainda assim, conquista atenção, poder e audiência. A lógica algorítmica das redes sociais potencializa esse movimento, premiando o escândalo com engajamento.
Conversando pouco depois do almoço com colegas, também acrescento aqui outro elemento essencial que percebo: o mecanismo da dessensibilização. A exposição contínua à violência reduz o impacto emocional dos atos, transformando o sofrimento alheio em mais um conteúdo a ser consumido. A curiosidade se mistura ao desejo inconsciente de observar o perigo à distância, numa posição segura, como quem assiste a um abismo sem cair nele. Por isso, aponto aqui para algo ainda que me deixa mais inquietante: o fascínio pelo agressor pode estar ligado à pulsão de morte, à atração pelo interdito e à identificação inconsciente com figuras que encarnam aquilo que o sujeito reprime em si mesmo. A violência que gostaria de executar e não pode.
Quando Pedro ganha seguidores após um ato de violência, o que se revela não é apenas um desvio individual, mas um sintoma social. A popularidade do agressor expõe uma sociedade que confunde visibilidade com valor, polêmica com relevância e audiência com absolvição simbólica. Transformar criminosos em personagens a serem seguidos não é neutro: é um gesto político, psicológico e cultural. Refletir sobre esse fenômeno é urgente, porque enquanto o agressor ganha mais e mais seguidores, a vítima corre o risco de ser ainda mais silenciada, e isso, sim, deveria nos causar o maior escândalo. E, infelizmente, ainda está longe de causar. E isso versa diretamente também sobre o seguidor, além da personalidade criminosa que passa a ser seguida. Triste. Muito triste.
