
Quando alguém reage com repulsa imediata ao ouvir uma música de Pablo Vittar, a ponto de abandonar a pista de dança, não estamos diante de um simples “gosto musical”. Há um gesto simbólico ali, uma recusa performática, quase teatral, que comunica algo mais profundo do que a superfície permite ver. A homofobia raramente é silenciosa; ela precisa do corpo, do gesto, da careta, da fuga. É o inconsciente pedindo passagem.
O ato de Matheus, na minha opinião, foi compreendido como um mecanismo de defesa. Freud já nos ensinava que aquilo que mais nos incomoda no outro muitas vezes toca um ponto sensível em nós mesmos. A projeção opera justamente assim: rejeita-se fora o que não se tolera dentro. Não se trata de afirmar, de maneira leviana, que todo homofóbico seja um gay reprimido: isso seria raso e até injusto, mas é inegável que, em muitos casos, a agressividade nasce do conflito psíquico com o desejo que não se pode realizar. O desejo então é recalcado para o sintoma (homofobia) dar as caras.
O problema central não é a sexualidade em si, mas o medo dela. A homofobia costuma caminhar lado a lado com uma masculinidade rigidamente vigiada, constantemente ameaçada. O gay, a drag, o corpo dissidente funcionam como espelhos perturbadores: mostram que há outras formas de existir, de desejar, de performar o gênero. Para quem construiu o "eu" sobre normas duras e punitivas, como Matheus, essa liberdade é vivida como provocação intolerável.
Há também um componente narcísico importante. O homofóbico, muitas vezes, precisa afirmar sua superioridade moral ou identitária para sustentar uma autoestima precária. Ao desqualificar o outro (como desfilar debochando dos trejeitos de uma pessoa mais afeminada), Matheus seguramente tenta se elevar. Mas o ódio, como bem sabemos, é um afeto caro: exige energia, vigilância constante e repetição. Ninguém odeia com tanta intensidade aquilo que lhe é, de fato, indiferente.
Por isso, a homofobia diz menos sobre quem é alvo dela e muito mais sobre quem a pratica. Ela revela conflitos não elaborados, desejos interditados, afetos mal resolvidos. Em vez de encará-los, o sujeito foge da pista, faz cara feia, aponta o dedo. Importante também dizer que o possível recalque do Mathes não lhe absolve dos atos homofóbicos: preconceito é escolha e responsabilidade, mas ajuda a compreender sua origem: um "eu acuado" que prefere odiar a se conhecer.
